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Resenha de Filme | O Quarto de Jack

Por: Marcello Azolino | Observatório do Cinema


O Quarto de Jack (Room) é um daqueles filmes guiados por atuações impecáveis e cheio de cenas que são prato cheio para bons atores se destacarem. Entrando como azarão na festa do Oscar de 2016, o filme tem chances reais de dar a Brie Larson o prêmio de melhor atriz.
Filmado praticamente no sótão de uma casa, o filme conta a história de “Ma” e Jack (Jacob Tremblay), mãe e filho, que vivem enclausurados depois dela ter sido sequestrada por um psicopata. Fruto de relação sexual com seu algoz, ela acaba dando a luz a Jack, que nasce neste universo claustrofóbico onde apenas uma claraboia, que ilumina o quarto, o conecta com o mundo real.
Quando Jack chega a uma fase em que começa a questionar tudo o que vê a sua volta, Ma percebe que o filho precisa escapar daquele mundo doentio custe o que custar. O menino é a única chance para os dois terem alforria, após sete anos de uma relação doentia provocada pelo desequilibrado vilão da fita, que praticamente aparece de relance em cenas pontuais.
Sem quase nunca deixar a peteca cair, a trama explora bem a relação de mãe e filho e coloca uma lupa nos impactos psicológicos que estes casos de enclausuramento forçado costumam causar. Se Brie Larson tem momentos brilhantes em sua atuação complexa e muitas vezes delicada, o menino Jack é um estouro. A expressão em seu rosto ao ver o céu pela primeira vez é tão tocante quanto arrepiante. Coisa de ator que não precisa nem abrir a boca para transmitir um bocado de mensagens. Como apoio de luxo, ainda contamos com as participações sempre inspiradas de Joan Allen e de Willian H. Macy, comos os avôs de Jack.


Entrar na sinopse mais a fundo entrega surpresas importantes do roteiro, mas é um daqueles filmes impactantes que se baseia menos em produção e mais na atuação. Aqueles famosos filmes do tipo “character driven”. De tempos em tempos, o Oscar agracia parte de suas categorias principais a uma fita de perfil independente, geralmente dramas sólidos como “In the Bedroom” ou “Winter´s Bone”. Desta vez, é a chance de O Quarto de Jack brilhar e colocar o dedo na ferida de uma patologia social que raramente é tratada no cinema. É sem dúvida um filme corajoso.
NOTA: 3/5

Resenha de Filme | Horas Decisivas

Por: João Carlos Correia | Observatório do Cinema


São nas adversidades e, algumas vezes, em pessoas que não inspiram muita confiança, que a coragem e o senso de dever afloram. Essas são as premissas iniciais do surpreendente filme Horas Decisivas, do diretor australiano Craig Gilesppie (Em Pé de Guerra).
Bernie Weller (Chris Pine, da franquia Star Trek) é um oficial da guarda costeira dos EUA relutante, mas muito eficiente, que sempre segue os regulamentos e vive em uma pequena cidade do litoral de Massachussets, ao norte do país. Ele tem um relacionamento com a bonita Miriam (a inglesa Holliday Granger, de Cinderela), de personalidade forte e que trabalha como telefonista. Ambos se conheceram em 1951, em um encontro às escuras, apaixonaram-se à primeira vista, namoraram durante um ano e ficaram noivos.
Em 1952, o navio petroleiro SS Pendleton retorna para casa em meio a uma terrível tempestade, que acaba por, literalmente, rachar o navio ao meio. Com apenas metade do navio e da tripulação, o impopular engenheiro-chefe Ray Sybert (Casey Affleck, de O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford) assume o comando e tenta levar o que sobrou da embarcação o mais próximo possível da costa para que sejam resgatados.
Ao tomar conhecimento do acidente, o comandante da guarda costeira Daniel Cluff (o australiano Eric Bana, de Tróia) ordena que Bernie constitua uma tripulação para resgatar a tripulação do Pendleton. Entre os escolhidos está o oficial Richard Livesey (Ben Foster, de O Grande Herói) que não confia em Bernie devido a um erro que este cometeu no passado. Os oficiais devem correr contra o tempo e o furioso temporal para poderem efetuar o resgate.
Baseado no livro The Finest Hours, dos escritores estadunidenses Casey Sherman e Michael J. Tougias, este filme foi uma surpresa para mim em todos os sentidos. Confesso que achava que seria apenas mais um filme de ação como dezenas de outros que aparecem todos os anos, mas, para grande satisfação minha e dos apreciadores de um bom filme, Horas Decisivas vai muito além.
Craig Gilesppie é ainda um nome não tão conhecido do grande público em geral. Começou sua carreira na publicidade – fazia comerciais de televisão – e seus trabalhos mais conhecidos no Brasil são a série de TV United States of Tara (2009-2011) e o remake d’ A Hora do Espanto (2011). Ainda não é considerado um nome do primeiro time de Hollywood, mas, após este filme, é bem possível que essa situação mude.
Seu trabalho de direção está firme e seguro na direção de atores e nas cenas de ação que, aliás, são emocionantes. É um trabalho na medida certa, que não torna o filme piegas ou exagerado no geral, no que é auxiliado pelos excelentes efeitos especiais tanto nas tomadas submarinas quanto nas de superfície, na fotografia do espanhol Javier Aguirresarobe (Vicky Cristina Barcelona) e na trilha sonora de Carter Burwell (Carol).
Chris Pine está muito bem no papel de Bernie, alguém humano, que segue regulamentos à risca, seja no trabalho ou na vida privada. Chega a duvidar da própria competência devido a um erro do passado que o atormenta, mas é alguém altamente cioso de seu dever e consciente que este deve ser cumprido, mesmo com o risco da própria vida. Parece que Chris nasceu mesmo para ser capitão (nos filmes, bem entendido).
Casey Affleck também está ótimo no papel do engenheiro-chefe Ray Sybert, um homem mais afeito às máquinas do que às pessoas, o que não o torna muito simpático entre os tripulantes do Pendleton. Assim como Bernie e à sua maneira, é também alguém cioso e consciente de seu dever para com a tripulação, o que o leva a conflitos com alguns tripulantes que não confiam nele, também do mesmo modo que Richard não confia em Bernie. Esse paralelo de semelhanças entre Bernie e Ray é uma boa sacada do filme e faz com que os dois personagens de personalidades diferentes se aproximem.
Entre os coadjuvantes, há dois que se destacam. O primeiro é o escocês Graham McTavish (saga O Hobbit), como o experiente marujo do Pendleton Frank Fauteux, chamado de “Pops” pelos tripulantes. Os tradutores foram muito infelizes em traduzir a palavra “Pops” como “coroa”. “Pops”, na verdade, é um diminutivo de pai e pode ser traduzido como “paizinho” ou “papi” (como no filme O Exterminador do Futuro: Gênesis) e é usado de forma carinhosa para o próprio pai ou alguém mais velho. Que mancada!
O outro coadjuvante de destaque é Abraham Benrubi (da série de TV Plantão Médico) no papel do cozinheiro grandão, cantador e simpático “Tiny” Myers. Esse apelido foi uma boa piada, pois, em inglês, “Tiny” significa “pequeno”. O único porém do filme foi com relação a dois personagens cuja importância foi diminuída por parte de um e aumentada por parte de outro.
O personagem de Eric Bana, o comandante Daniel Cluff, é visto apenas como o chato do filme, cujo sotaque recebe a implicância de todos quando, na vida real, sua importância foi bem maior. Foi uma pena e um desperdício usarem um ator bom como Bana de um modo tão reduzido assim.
Já Miriam, a personagem de Holliday Granger, ao contrário de Cluff, teve sua importância excessivamente aumentada. Ela faz bem sua personagem de forte personalidade, mas achei forçada a cena na qual é ela quem tem a ideia de ajudar o barco de Bernie a voltar para a costa. Além do mais, achei que ela estava maquiada e vestida mais como uma estrela de cinema da época do que uma jovem da Classe Trabalhadora. Não que isso seja um demérito em si, mas tirou um pouco do realismo.
Colocando tudo na balança, ela pende mais do que a favor. Horas Decisivas é um filme com grandes e fortes emoções, que vai, certamente, agradar ao público e é candidato a ser uma das grandes surpresas da temporada de cinema de 2016. Podem assistir sem receio, pois a diversão é garantida.
NOTA: 4/5

Resenha de Filme | Boneco do Mal

Por: Roberto Bueno | Observatório do Cinema


Alguns brinquedos sempre são lembrados pelo medo que despertam nas pessoas. Os integrantes da indústria cinematográfica são espertos e aproveitaram para criar filmes baseados nesse medo. Produções como o recente Annabelle (2014) e o já clássico Brinquedo Assassino (1988) – o do Chucky – fazem sucesso por nos lembrar desse temor. O longa-metragem Boneco do Mal é o mais recente exemplo dessa safra.

Em Boneco do Mal, a norte-americana Greta Evans (Lauren Cohan, da série The Walking Dead) vai à Inglaterra atrás de um emprego em uma casa de campo. Ela foi chamada pelo casal Heelshire. Porém, ao chegar, eles não estão em casa e ela acaba conhecendo o entregador de mercadorias, Malcolm (Rupert Evans, de Hellboy). Quando o casal chega, ela finalmente pode conhecer o menino que será cuidado, Brahms.

Brahmas não é exatamente como ela imaginava. Caso aceite o trabalho, Greta terá que cuidar de um boneco. Sra. Heelshire (Diana Hardcastle, de O Exótico Hotel Marigold) a ensina sobre as regras de cuidados com Brahms: como vesti-lo, quando são as refeições, quais músicas e em qual volume ele gosta de escutar, o que e como ler para ele e outras coisas mais. Já o Sr. Heelshire (Jim Norton, de Água para Elefante) mostrou a ela como cuidar da casa.

O casal, após conversarem com Brahms, dizem a ela que ele a aceitou, caso queira o trabalho. Assim, se aproveitando do inicio do trabalho de Greta, o casal decide sair de férias. Sozinha, a norte-americana começa perceber aos poucos que não parecerá tão simples assim cuidar do boneco.

A história criada pelo roteirista estreante, Stacey Menear, consegue unir perfeitamente os preceitos de filmes de terror norte-americano com os de filmes de terror asiáticos. Menear escreveu um ótimo roteiro que consegue prender o espectador na cadeira. A história mantém a tensão do público constantemente alta, na medida certa, com alguns momentos mais fortes e outros nos quais poderá respirar um pouco.

Praticamente em cena o tempo inteiro, a atriz norte-americana Lauren Cohan não faz feio, mas não alcança o que poderia alcançar. Lauren segura o filme, porém sua interpretação não tem o peso necessário ao que é exigido. O britânico Rupert Evans já tem mais traquejo em cena. Apesar do seu personagem ser coadjuvante, Evans mostra o que sabe no pouco tempo em que aparece.

O irlandês Jim Norton e a inglesa Diana Hardcastle mostram que são maravilhosos atores, porque nas pouquíssimas cenas que eles têm, demonstram toda a complexidade dos seus personagens. O diretor norte-americano William Brent Bell já tem certa experiência em filmes de terror. Ele começou dirigindo Stay Alive – Jogo Mortal (2006) e realizou Filha do Mal (2012). Boneco do Mal é o quinto filme dirigido por ele, sendo o quarto de terror. Percebe-se um pouco a falta de experiência dele. Bell não conseguiu tirar o máximo de Lauren Cohan, por exemplo. Não que ele tenha realizado um longa ruim. Não é isso. Ele poderia ter conseguido fazer mais do ótimo roteiro que tinha em mãos.

O compositor Bear McCreary faz um trabalho certeiro, porém, também, nada excepcional. McCreary trabalhou na série The Walking Dead. Ele soube ser pontual e deixar a história criar a tensão por si só. O diretor de fotografia, Daniel Pearl, segue a tendência da equipe de produção e faz um bom trabalho. Pearl, que trabalhou no reboot de Sexta-Feira 13 (2009), se destaca ao fazer imagens para serem usadas nas transições de cenas. Essas reforçam o mistério que envolve o boneco.

Esta premissa de uma família que cria um boneco como se fosse seu filho morto parece familiar em um primeiro instante, mas Boneco do Mal consegue, apesar do trabalho mediano do diretor, ser um filme que surpreende o público ao final. Quem quiser entender o que se passa com esta a família Heelshire não estará perdendo o seu tempo indo ao cinema.

NOTA: 3/5

Resenha de Filme: A 5ª Onda


A 5ª Onda bebe muito na fonte dos recentes sucessos teens que reúnem um futuro pós-apocalíptico, jovens heróis e uma ameaça muito maior que os simples mortais. Indo na onda (perdoem-me o trocadilho) de Os Jogos Vorazes e afins, o filme ainda coloca no liquidificador uma série de filmes de catástrofe com invasão alienígena a la Independence Day, mas esse projeto não consegue alcançar nenhum sucesso em nenhuma de suas empreitadas.

A 5ª Onda acompanha a história de uma invasão que, por meio de cinco ataques diferentes, busca dizimar a raça humana do planeta. Essa catástrofe é narrada do ponto de vista de Cassie (Chloe Grace Moretz), uma adolescente que se vê obrigada a lutar com os invasores – estes chamados de ‘Os Outros’. Com essa premissa é inacreditável como a 5ª Onda consegue cair nos clichês mais óbvios tanto do cinema adolescente quanto da ficção científica.

O filme tem início mostrando como era a vida de Cassie antes da invasão, com uma narração em off da protagonista, que explica absolutamente tudo o que já está na tela, subestimando toda a capacidade de seu público. Assim, nesse primeiro momento a personagem é construída baseada no típico estereótipo da garota de classe média do subúrbio americano, uma garota que vive nas festas na casa de seus amigos, esperando pelo garoto do futebol americano puxar conversa, mas sem perder seu amor pela família. Uma personagem de tão perfeita que perde toda sua empatia.

E pensar que depois da invasão Cassie se tornaria uma protagonista mais interessante, nada disso acontece. A garota pega em armas e luta como uma guerreira da mesma maneira que era a garota pop na escola. E como A 5ª Onda tenta, da mesma maneira como Jogos Vorazes e Mad Max, criar uma personagem feminina forte, mas que cai nas armadilhas de conter um ou dois coadjuvantes masculinos que fazem absolutamente tudo para ela, parece que o filme julga que sua protagonista necessita de um apoio masculino, tendo até mesmo que ouvir que aquela invasão deixou-a muito durona (detalhe: nesse momento, ainda no meio do longa, ela já havia perdido mãe, pai e estava tentando resgatar o irmão; quem não ficaria durona(o) diante dessa situação?). Nessa luta pela sobrevivência, Cassie se demonstra tão perfeita como a menina do colégio, ainda mais com seus amigos másculos por perto, sendo praticamente imbatível; seu único defeito é dar uma espiadinha no banho do garoto que acompanha sua jornada. Uma cena que se torna vergonhosa de tão risível que é.

É interessante notar como A 5ª Onda tenta provar ser um filme para gente grande mesmo destinado ao público jovem, apostando em sequências recheadas de violências, alguns palavrões e insinuações sexuais. Mas um filme maduro vai muito além dessas superficiais características, e A 5ª Onda não consegue se aprofundar em nenhum de seus temas, seja a invasão, ou os alienígenas infiltrados no mundo humano – nada disso torna-se o conteúdo do filme. E talvez esse seja o mais fascinante da ficção científica, o modo de mostrar medos e fatos tão comuns da vida cotidiana através de uma metáfora que projeta o futuro e o fantástico. No entanto, para A 5ª Onda os tiros de sua perfeita protagonista e os efeitos especiais realizados no computador bastam.

Com isso, não é preciso dizer que a preocupação com o roteiro é mínima, tornando-se um longa incrivelmente previsível. Há teoricamente uma grande revelação que muda os lados do filme, mas que ela é tão superficial e os personagens descobrem tão facilmente esse grande enigma, que esse artifício é totalmente desastroso. No momento da grande revelação, uma personagem simplesmente diz que não é daquele jeito, mas sim de outro completamente diferente e pronto, tudo resolvido. Aliás, todos os problemas dos protagonistas são solucionados dessa maneira, uma explicação verbal para alguma coincidência ou algo do gênero. Os personagens não agem diante de suas mazelas, elas apenas são resolvidas.

A 5ª Onda é mais uma tentativa de emplacar uma franquia no cinema, mas o filme parece ser um projeto tão displicente, que dificilmente alcançará algum sucesso. O longa apenas subestima seu público jovem, acreditando que algumas cenas de ação são suficientes para uma boa ficção.

Por: Giovanni Rizzo via Observatório do Cinema

Resenha de Filme: Joy: O Nome do Sucesso


O diretor David O. Russell, de filmes como "O Vencedor" e "O Lado Bom da Vida", é conhecido pela mistura entre drama e humor em seus trabalhos. O diretor, porém, não conseguiu fazer esta mistura no seu mais recente trabalho, "Joy: O Nome do Sucesso". O filme, que até parece ser uma encomenda da própria Joy Mangano, inventora do Miracle Mop, um esfregão de algodão que é torcido pelo cabo, conta um pouco sobre a vida dela e como ela inventou justamente o esfregão.
Joy Mangano (Jennifer Lawrence, da franquia Jogos Vorazes), filha de um casal separado, Rudy (Robert De Niro, de Um Senhor Estagiário) e Terry (Virginia Madsen, de A Garota da Capa Vermelha), é criativa e inventiva desde criança. Entretanto, ao crescer, não conseguiu fugir do vórtice criado pela própria família que a suga para baixo. A mãe passava seus dias assistindo a novelas norte-americanas, como Dinastia. O pai, dono de uma oficina mecânica e de um estande de tiro, ambos em um mesmo local, ajudava Joy pagar a prestação da casa e ela fazia a contabilidade dele. Havia ainda uma meia-irmã do primeiro casamento do pai, Peggy (Elisabeth Röhm, da série Stalker), que trabalhava com ele na oficina e a avó materna, Mimi (Diane Ladd, da série Enlightened), que cuidava dos filhos de Joy quando esta estava muito ocupada.
Ela se casou com um eterno aspirante a cantor, o venezuelano Tony (Édgar Ramirez, de Livra-nos do Mal). E teve uma menina, e depois, um menino. Apesar de divorciados, ele ficou morando no porão da casa. Joy tem uma amiga, Jackie (Dascha Polanco, da série Orange Is The New Black), com quem desabafa seus problemas. Assim, trabalhando em um aeroporto como atendente em uma empresa aérea, ela tenta sobreviver ao drama que é a sua vida, pior do que o vivido pelos personagens das novelas que a mãe assiste. Quando parece estar perdida, Joy acaba tendo a ideia que mudará a sua vida para sempre. Porém, como sempre em sua história, o caminho que percorrerá não será fácil.
A premissa do roteiro parece ser uma homenagem às mulheres que tiveram coragem de mudar suas vidas e com isso acabaram mudando o mundo. Inclusive o longa começa com a seguinte frase, em inglês: “inspirado em histórias reais de ousadas mulheres. Uma em particular”. A ideia de contar a história de Joy Mangano foi do próprio Russell e da atriz Annie Mumolo, mas o roteiro foi escrito apenas por ele.
Joy: O Nome do Sucesso começa com a reprodução de uma cena da novela Dinastia. Como se Russell dissesse que contaria a trajetória da empresária norte-americana como uma novela. Fazer desta forma é interessante, se tivesse sido bem escrita. Alguns pontos deixam os espectadores se perguntando: por que a personagem não fez isto antes? Um exemplo disso é quando Joy relê os contratos que assinou e percebe no que tinha se enfiado.
Não há problema algum misturar realidade com ficção desde que este trabalho seja construído de forma que, tanto uma quanto a outra, se encaixem perfeitamente, sem parecer que foram forçadas. Mas é exatamente isto o que acontece. O roteiro e a direção de Russell não conseguiram fazer com que as duas vertentes da história de Joy se conectassem perfeitamente. Como uma colcha de retalhos mal costurada, existem muitas aberturas desnecessárias, pedaços que ficaram ruins colocados lado a lado e o arremate deixa a desejar. Um exemplo de um dos artifícios que não foram muito bem utilizados é a narração realizada pela avó.
O elenco, como um todo, está bem. O filme não é pior por causa deles. Muitos têm trabalhado com David Russell em seus últimos longas, quase com um grupo teatral, com a presença de Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Elisabeth Röhm e Bradley Cooper. Eles realmente levam o filme nas costas, tal qual Joy leva a família. Mas ao contrário desta em relação à família, ao final, por mais que se esforcem, não conseguem carrega-lo tão bem.
Jannifer Lawrence (vencedora do Globo de Ouro e indicada ao Oscar pelo papel), mais uma vez, consegue se mostrar uma atriz versátil. Ela interpreta uma mulher muito diferente do que costuma interpretar. Apesar de esta ter alguns pontos em comum com personagens anteriores, – a garra e a determinação – Joy tem uma maior fragilidade ocasionada pela sua própria determinação.
Merece elogios a designer de produção, Judy Becker. Ela está acostumada a trabalhar com Russell, estando junto com ele em Amor Por Acidente (2015) e Trapaça (2013), e se percebe a mão dela na reconstituição de época, por exemplo. Ela é realmente boa nisto. E combinado com a fotografia do sueco Linus Sandgren (A 100 Passos de Um Sonho, 2014), esta produção tem, como nas maiorias dos filmes de Russell, ótimas imagens e uma filmagem excelente. A maneira como ela cai no sono e as imagens que surgem a partir daí são ótimas sacadas. A edição de Joy: O Nome do Sucesso mostra que apesar da história ser fraca, as partes técnicas não foram as causas dos problemas. Estranhamente, o longa tem quatro editores responsáveis. Trabalharam Alan Baumgarten, Jay Cassidy, Tom Cross e Christopher Tellefsen. Os quatro até tentam dar uma agilidade a ela, mesmo assim, não conseguem deixar de fazer com que o longa parecesse… longo. Com um pouco mais de duas horas de duração, o terceiro ato parece se arrastar para terminar.
Outro aspecto técnico que deixa claro que o problema é o roteiro é a trilha sonora. Feita por dois compositores, West Dylan Thordson e o canadense David Campbell, a trilha até consegue agarrar o público em algumas partes fundamentais da história. Mas mesmo isto não é suficiente.
Joy: O Nome do Sucesso poderia ter sido um ótimo filme sobre a história de ascensão de uma empresária norte-americana. Inclusive ela é uma das produtoras do filme. A produção poderia ter contribuindo, inclusive, para mostrar como, muitas vezes, as mulheres são boicotadas pelos mais próximos. Será que se David Russell tivesse deixado para Annie Mumolo fazer o roteiro teríamos um filme melhor? Provavelmente, sim.
Por: Roberto Bueno via Observatório do Cinema

Resenha de Filme: Reza a Lenda


Desde o último “Tropa de Elite” não víamos um filme tão sangrento e violento nos cinemas brasileiros, "Reza a Lenda" chega para acabar com esse hiato. O longa dirigido por Homero Olivetto, abrange diversos gêneros que vai da seca no sertão a religião. Com ótima fotografia e trilha sonora que envolve o público em cenas de ação, o filme se passa na caatinga nordestina e gira em torno de Ara (Cauã Reymond), religioso fanático que rouba a imagem de uma santa e acaba comprando briga com o proprietário da imagem, o Coronel Tenório (Humberto Martins), que sai a procura de Ara e seu bando pelo sertão. Ara acredita que precisa trazer a chuva de volta as terras nordestinas custe o que custar e por isso vai atrás de pessoas perigosas.

Quem espera ver uma “versão brasileira de Mad Max”, o filme toca em assuntos relacionados ao enredo do mesmo como, por exemplo, a falta d’água e um cenário apocalíptico, além das motos e perseguições ao estilo George Miller. Outro fator que deixa o filme bastante parecido com Mad Max é o figurino do elenco, poderíamos comparar Severina (Sophie Charlotte) a Furiosa (Charlize Theron), ou não, isso cabe a sua imaginação!
 

A performance de Cauã Reymond, segue o padrão que ele havia apresentado em séries como “Amores Roubados”, “O Caçador” e o filme “Alemão”, todas produzidas pela TV Globo. Já Sophie Charlotte deixa a desejar interpretando a jovem Severina, sua atuação é bem abaixo do esperado e se perde cada vez mais no decorrer da história e de protagonista vira co-protagonista perdendo espaço para Luiza Arraes (Laura), que cai de paraquedas na história e vira o foco principal. Humberto Martins parece que nasceu para ser um Coronel, seu jeito de falar e algumas atitudes deixam seu personagem perturbador e assustador ao mesmo tempo.

Ao todo o é um bom roteiro, destaca alguns gêneros pesados como abuso sexual e coronelismo em uma terra esquecida por deus. Tem um desenvolvimento legal, trilha sonora boa e fotografia impecável. O filme não segue os clichês cinematográficos brasileiros, tem algumas cenas boas de ação, mas peca nos efeitos especiais em algumas cenas fica parecendo uma esquete de algum filme antigo. O longa está longe de ser o melhor filme brasileiro, mas vale dar uma conferida. 

Nota: 7